Como projetos individuais e criativos estão a mudar o panorama cultural de Lisboa: Parte II
Uma viagem pelas melhores propostas criativas da cidade, Lisbon
O Apartamento × FvF
Features > Como projetos individuais e criativos estão…

Em baixo está a continuação das entrevistas levadas a cabo por Inês Matos Andrade e Paula Cosme Pinto sobre os projetos e pessoas que têm ajudado a moldar a paisagem criativa e o tecido cultural lisboeta.

Neste segundo capítulo desta jornada urbana, apresentam-nos dois street artists que usam as paredes decadentes da cidade como tela para o seu trabalho artístico. Duas mulheres com uma visão inovadora renovaram um espaço abandonado num bairro problemático e transformaram-no num local dedicado a cultura, música e pessoas. Já os irmãos Cortiço consideram que catalogar milhares de azulejos é não só uma forma de guardar o legado deixado pelo avô, mas também seu dever cultural para o património da cidade. A manter a tradição, mas de uma forma bem diferente, está Miguel Leão que abriu em Lisboa a sua própria barbearia – a que deu o nome de um lendário pugilista português – seguindo os princípios da velha guarda que lhe foram ensinados pelo seu mestre. Já para Isabel Soares as preocupações com a aparência estão mais centradas na fruta e legumes que compra para o seu projeto. Isto porque Isabel evita o desperdício, vendendo cabazes de fruta e legumes que eram, até agora, deitados ao lixo por causa do seu aspecto tosco.

Corleone e Kruella d’Enfer: Vilões amigáveis

Artistas auto-didactas fazem das ruas e edifícios as suas telas

Freunde-von-Freunden-Lisbon-Kruella_Corleone_02

Têm nomes de mafiosos, mas quando se descrevem um ao outro mais parecem personagens de filme romântico: Ele diz que “ela é a mulher mais criativa que conhece, uma caixa de surpresas”; ela diz que “ele é o homem mais humilde, amigo e bem-disposto” de sempre. Toda esta doçura de palavras se sente ao olhar para o seu trabalho, onde fantasia e humor parecem andar de mãos dadas.

Ilustradores e street artists, têm feito de Lisboa a sua tela e é lá que foram contribuindo para a abertura da cidade aos encantos da arte urbana. Mas voltemos atrás, até 2009, quando se apaixonaram via chat. Ângela Ferreira – que hoje veste a pele de Kruella d’Enfer – era então estudante de design de ambientes. Pedro Campiche – AKA Corleone desde os seus tempos de graffiter – era designer gráfico. Ambos odiavam o rumo das suas vidas e encontraram no outro a compreensão desejada.

Para passar o tempo começaram a desenhar juntos. “Acima de tudo divertíamo-nos imenso a desenhar e a tirar ideias de revistas e fanzines, era algo que tínhamos em comum”. Rapidamente perceberam que tinham jeito. Enquanto autodidatas, a viver numa pequena cidade a 100 km de Lisboa, começaram a enviar as suas experiências para fazines e galerias dedicadas a jovens talentos. Depois atiraram-se a experiências em fábricas abandona. E nas redes sociais foram partilhando o seu trabalho.

“Estarmos juntos foi essencial. Um puxa o outro, nunca nos deixamos ir abaixo”

Mudaram-se para Lisboa em 2012, decididos a tentar vingar. Fizeram trabalho pro bono, participaram em mostras coletivas e o meio abriu-se ao seu trabalho. “Persistir e arriscar tornou-se o lema”, conta Pedro. “Estarmos juntos foi essencial. Um puxa o outro, nunca nos deixamos ir abaixo”. Foi o que aconteceu quando os convidaram a participar num festival de arte urbana em Bangkok. Ela achava impossível, ele não deixou que desistissem. E quando a embaixada portuguesa lhes subsidiou a viagem perceberam que estavam a entrar no seu ponto de viragem.

Foram, mostraram o seu valor, receberam aplausos e ganharam estatuto. Hoje têm o seu trabalho espalhado por Lisboa, desde fachadas a murais, caixotes de reciclagem e espaços de co-work. Trabalham sempre juntos, ora a pintar, ora como assistentes um do outro. Usam as mesmas cores e têm linguagens semelhantes, mas marcam bem a fronteira entre o que os inspira: Kruella d’Enfer brinca com o misticismo e o surreal, AKA Corleone deixa-se levar pelos elementos da BD, da tipografia, das cidades por onde passa e pela desconstrução do Homem. Individualmente ou em conjunto, são uma referência. “A arte urbana revela maturidade das cidades e Lisboa está a servir de exemplo ao resto do país”, conclui o casal de artistas. “Daqui a 10 anos, quando se falar deste movimento pioneiro, vamo-nos sentir orgulhosos por ter feito parte dele.”

Casa Independente: Duas mulheres, uma visão eclética

Um espaço multidisciplinar num bairro recém recuperado

Freunde-von-Freunden-Lisbon-Casa_Independente07

Inês Valdez e Patrícia Craveiro Lopes não se consideram visionárias, mas admitem que têm boa capacidade de observação. Quando em 2012 se depararam com um prédio em ruínas, num largo de Lisboa considerado proibido, ambas sentiram que era boa ideia ficar com ele. O bairro do Intendente sofria então passos de bebé na reabilitação de problemas graves, como prostituição e toxicodependência. “A dinâmica de mudança já era latente, foi só conseguir ver para lá do óbvio.”

Não se enganaram. Ambas ligadas às artes e produção de espetáculos, decidiram avançar com um espaço que à noite albergasse cafetaria, eventos, dj’s, concertos, exposições e workshops. Ao mesmo tempo, durante o dia planeavam dar guarida às pessoas do bairro, com ações de cariz social dedicadas especialmente às crianças. A tudo isto chamariam de Casa Independente.

“A dinâmica de mudança já era latente, foi só conseguir ver para lá do óbvio.”

Se há quatro anos muitos lhes diziam que eram doidas por tentarem abrir uma ideia daquelas, naquele bairro, hoje todos lhes fazem vénia: A Casa Independente tornou-se num dos marcos da vida de Lisboa, com uma agenda onde cabe música, fotografia, dança e gastronomia. Um projeto pioneiro, que acabou por servir de impulsionador a muitos outros que mais tarde vieram trazer novo fôlego ao Intendente, a mais recente zona hipster da capital portuguesa.

“Se antes esta era uma zona proibida, agora é quase uma sala de estar de Lisboa. Democrática e transversal”, explicam Patrícia e Inês, cicerones diárias de quem visita o espaço. Divertidas, assertivas e ecléticas, representam bem o espírito independente da casa a que deram vida. E da janela espreitam com deleite o que mudou na zona: o que era um largo cheio de prostitutas e toxicodependentes, tornou-se um dos pontos de encontro de pessoas de toda a cidade. Onde crianças andam de patins à tarde, casais trocam beijos apaixonados e grupos de amigos se juntam em busca de diversão noturna na Casa Independente.

A entrada é grátis. Lá dentro, salas pequenas e grandes foram decoradas com restos de mobiliário usado, recuperado à mão por Patrícia e Inês. Um enorme tigre contrasta com um jardim vertical na parede da sala de concertos, as casas de banho primam pelas instalações carregadas de ironia e no terraço os sofás antigos convidam a ficar durante as tardes de verão. E a verdade é que toda a gente parece querer prolongar a visita.

Cortiço & Netos: Azulejos que contam histórias

Uma família que se dedica a catalogar azulejos como homenagem ao avô

Freunde-von-Freunden-Lisbon-Corticos_e_Netos_03

Na curta-metragem documental que Ricardo Cortiço fez sobre o seu avô, é fácil perceber a quantidade astronómica de azulejos que a família Cortiço tem. Esse espólio foi construído durante mais de trinta anos por Joaquim, conhecido como Avô Cortiço.

Em 1979, Joaquim Cortiço abriu uma loja de venda de materiais de construção. Portugal tinha saído há pouco tempo de uma ditadura, estava a abrir as suas fronteiras ao mundo e a procura por outro tipo de materiais para as casas tornou os azulejos obsoletos. “Como essas peças antigas caíram em desuso e era preciso arranjar espaço no stock para novas opções, os azulejos eram despachados a preços muito baixos”, explica Ricardo Carriço, 28 anos, um dos quatro irmãos por trás da loja Cortiço & Netos – os restantes são Pedro, 38 anos, João, 35 e Tiago, 23.

O Avô Cortiço comprava tudo, sem critério e sem perceber o quanto estava a contribuir para a preservação do património nacional. O que o estimulava eram as cartas que recebia, a perguntar se tinha este ou aquele azulejo para completar uma parede da cozinha ou do WC. Essas cartas vinham acompanhadas por fotografias dos azulejos em contextos familiares ou pessoais. “Temos uma fotografia que enviaram ao nosso avô onde se vê uma menina mascarada a dançar. Atrás está o azulejo que a pessoa queria. Isto é algo que ainda hoje, na loja nova, acontece. Recebemos emails com fotografias onde aparecem mãos, pés e até gatos”, conta Tiago, o irmão mais novo da prole. Essa relação emocional que os portugueses têm com os azulejos legitima o trabalho que os irmãos Cortiço fazem. “O meu avô contava a história de um homem que veio do Alentejo à procura de dois azulejos para a piscina e desatou a chorar quando os encontrou”.

“O meu avô contava a história de um homem que veio do Alentejo à procura de dois azulejos para a piscina e desatou a chorar quando os encontrou”.

Em 2009, a Câmara Municipal expulsou o avô Cortiço da sua loja para construir uma via rápida. No processo de demolição, muitos azulejos foram destruídos e descartados. Felizmente, por falta de espaço, o avô já mantinha um terreno fora de Lisboa onde guardava grande parte do material. Em finais de 2014, os quatro irmãos abriram uma loja na Mouraria que, neste momento, tem à venda 300 referências de azulejos diferentes. “Nós tentamos catalogar tudo, mas ainda no outro dia encontrámos mais 10 m2 de azulejo. Isso são 450 azulejos”, desabafa Ricardo enquanto explica que, informalmente, já conseguiram contabilizar 900 padrões de azulejos diferentes. “Além da responsabilidade familiar que temos por causa do nosso avô – que entretanto faleceu – temos um dever cultural. Antigamente havia mais de 20 fábricas de azulejos e hoje não há nada. Por mais azulejos que tenhamos, um dia eles vão acabar”.

Atualmente é possível admirá-los um a um nas prateleiras da loja Cortiço & Netos que foi desenhada pelo irmão Pedro, o mais velho. Estão divididos por três tipologias: azulejos mais raros ou com relevo que custam 5,90€, os intermédios, 3,90€ e os que existem em maior quantidade valem 1,90€. Preços que provam que a ideia é partilhar esta arte com o público. “Não queremos os azulejos para nós, ainda que guardemos 20 exemplares de cada padrão/tipo para coleção privada e para, no futuro, fazermos uma exposição”, diz Ricardo. Tiago, o mais novo, acrescenta: “e um livro, onde as fotografias e cartas que escreviam ao nosso avô também estejam por lá”.

Miguel Leão: O barbeiro que sabe manter a tradição com pinta

Uma barbearia rockabilly que homenageia um pugilista português

Freunde-von-Freunden-Lisbon-Belarmino_05

“Boxe, barbas e rock’n’roll” podia bem ser o slogan da barbearia que Miguel Leão orgulhosamente gere perto do Elevador da Glória, em Lisboa. Miguel nasceu nos Olivais, um bairro nos arredores da cidade, onde cortava o cabelo aos amigos apenas por carolice. “Era o único que tinha uma máquina que um tio me ofereceu no Natal e eles deixavam-me cortar. Uma vez dei uma carecada à minha avó”. Mas a avó nunca o denunciou.
Miguel completou os estudos e tornou-se controlador financeiro na área da aviação comercial. Era, como é suposto nestas histórias de vidas viradas do avesso, um homem infeliz. “Quando percebi que tinha de parar e mudar de vida foi óbvio para mim que, se gosto de cortar cabelos, era isso que devia aprofundar”. Começou por passar os sábados nas barbearias do bairro a conversar com os velhotes que outrora lhe trataram da pilosidade. Na altura era obrigatório, em Portugal, tirar uma licença de cabeleireiro, por isso, Miguel estudava à noite e trabalhava de dia. Em pouco tempo conseguiu chegar à Barbearia Campos, a mais emblemática barbearia de Lisboa, aberta em 1886. “Ser barbeiro é uma profissão que exige formação. Usam-se ferramentas perigosas, respeitam-se métodos e higiene”. E isso não se aprende em tutoriais de YouTube como fazem os barbeiros da nova vaga. “Um bom barbeiro faz-se em dez anos, não em três meses.

“Quando percebi que tinha de parar e mudar de vida foi óbvio para mim que, se gosto de cortar cabelos, era isso que devia aprofundar”.

Os barbeiros da velha guarda demoram tempo a aprender e é o mestre quem determina se eles podem subir mais um degrau e quando é que estão prontos para ser barbeiros”. E Miguel estava pronto quando cortou o cabelo a uns noruegueses que visitaram a Barbearia Campos. Mais tarde, convidaram-no para se mudar para Oslo e abrir a primeira barbearia da cidade desde os anos 70. Durante um ano e meio, Miguel veio todos os meses a Portugal para estar com a família e cortar o cabelo aos mais fiéis clientes da sua lista de quatro centenas. Podia ter ficado por lá, podia ter aceitado a sociedade e ter expandido as barbearias para Berlim. “Mas eu queria ter o meu próprio espaço cá. E não queria privar a minha família da vida que tinha, deste sol, apenas por dinheiro. O dinheiro não é tudo”. Ainda à distância e em apenas um mês, Miguel Leão abriu a Belarmino num antigo bar de rockabilly chamado Fuga de Óleo. O nome para a barbearia surgiu enquanto cortava o cabelo a um cliente, um criativo numa agência de publicidade: “Ele perguntou-me ‘quais são as tuas influências? O que é que mais gostas?’ Skate, boxe, respondi. ‘Boxe é bom, boxe é nobre’, disse ele. Eu queria que fosse uma referência portuguesa. Lembramo-nos do Belarmino, o maior pugilista português que se movimentou nos anos 40, 50 e 60, décadas que influenciam muito os cortes que faço”. Quando o cliente entra, Miguel analisa a estrutura óssea, o estilo, a profissão, o tipo de cabelo. Em cima da bancada estão tesouras, pentes, bálsamos, tónicos, óleos e pomadas. No rádio, guitarras elétricas tocam freneticamente. A avó de Miguel já morreu, mas ele continua a cortar o cabelo ao avô de 91 anos.

Fruta Feia: Levantar a auto-estima à fruta indesejada

Um projeto que se dedica a combater o desperdício

Freunde-von-Freunden-Lisbon-FrutaFeia_03

Gente bonita come fruta feia. É com este lema que, todas as semanas, a equipa do projeto Fruta Feia entrega cabazes de produtos hortícolas a mais de 800 pessoas.

Tudo começou em Barcelona quando Isabel Soares se apercebeu que às prateleiras dos supermercados chegavam apenas as frutas e legumes mais bonitos e com o tamanho adequado. “Percebi que havia um enorme desperdício alimentar e indignei-me: como é que se manda tão bons produtos para o lixo por razões estéticas? Se eu estava disposta a comer fruta mais pequena e disforme, pensei que talvez houvesse mais gente como eu”. Devorou documentários, leu sobre o assunto, informou-se ao máximo. Se em Espanha era assim, em Portugal, provavelmente, também. Quando voltou a casa pelo Natal, perguntou a um tio agricultor se o desperdício era grande ao que ele lhe respondeu que, só nesse ano, tinha deitado fora 40% das suas peras apenas por serem pequenas. “E as peras do meu tio são mesmo saborosas!” garante Isabel.

“Ninguém acreditava que eu quisesse pagar um preço justo por fruta feia. O Sr. Raposo chegou a expulsar-me da horta”.

Desenvolveu um plano e concorreu a um apoio para residentes no estrangeiro que tenham boas ideias para o país. Ficou em segundo lugar e voltou para Portugal com muito medo na bagagem. “O orçamento inicial para lançar o projeto era 24.000 e o segundo lugar no concurso só valia 15.000. Dava para arrancar, mas não era suficiente. Reduzi custos, organizei um crowdfunding e optei por um modelo social mais sustentável, a cooperativa de consumo”. Em novembro de 2013, a Fruta Feia começou a funcionar, com 10 agricultores a fornecer produtos, 100 associados – que pagam uma quota anual de 5€ e compram o seu cabaz semanalmente – e mais 160 pessoas em lista de espera. Três anos depois, estes números cresceram dramaticamente: 44 agricultores, 800 associados e mais de 3200 pessoas à espera para entrar. “Estamos a crescer e queremos crescer, mas com calma”, explica Isabel, “Apesar da Fruta Feia ser autossustentável, nós queremos manter a relação personalizada que temos com os agricultores e com os consumidores e para isso só podemos receber 300 pessoas de cada vez em cada ponto de entrega dos cabazes”. A única forma de aceitarem mais pessoas é abrirem novos locais e isso exige investimento. “Conseguimos agora um financiamento da União Europeia com o qual nos comprometemos a abrir oito pontos de entrega nos próximos três anos”. Por isso, desde do início de maio, a Fruta Feia passou a operar no Porto, onde colabora com mais de 40 agricultores no norte do país.

Isabel ri-se quando recorda o quão difícil foi convencer os agricultores a vender-lhe a fruta que outros rejeitaram no passado. “Ninguém acreditava que eu quisesse pagar um preço justo por fruta feia. O Sr. Raposo chegou a expulsar-me da horta”. Hoje em dia Isabel trabalha com mais cinco pessoas e oitenta voluntários. Quase todos eles conhecem as histórias dos agricultores. E é possível ouvi-las em frutafeia.pt.

Valeu a pena explorar a riqueza cultural de Lisboa e todas estas iniciativas através do olhar de  Inês e Paula d’ O Apartamento. Explore aqui mais histórias sobre projectos únicos da capital portuguesa.

Texto: Inês Matos Andrade & Paula Cosme Pinto
Fotografia: Nuno Fox