Como projetos individuais e criativos estão a mudar o panorama cultural de Lisboa
Uma viagem pelas melhores propostas criativas da cidade, Lisbon
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Afamada entre estrangeiros pelo seu assento pitoresco na foz do rio Tejo, pelos edifícios típicos forrados a azulejo e pelos seus elétricos centenários, Lisboa forma um quadro encantador.

Porém, por detrás destas famosas fachadas, é observável um outro tipo de charme. As nossas amigas Inês Matos Andrade e Paula Cosme Pinto de O Apartamento levam-nos a conhecer os Lisboetas responsáveis pelas várias organizações comunitárias que estão a revitalizar diversas zonas da cidade e, com elas, o espírito local.

O Apartamento também forma parte desta missão cultural: um coletivo que alberga residências artísticas, eventos e workshops, com a missão de trazer o mundo a Portugal e de introduzir o melhor de Portugal ao mundo. A nossa excursão percorre vários bairros de Lisboa: desde a histórica Mouraria, onde uma cozinha comunitária oferece um novo percurso de carreira a pessoas desfavorecidas; passando pela Baixa de Lisboa, onde um coletivo de avós designers se recusa a abrandar com a idade; e culminando numa antiga fábrica que é agora um local privilegiado para a cultura. Os projetos fazem bom uso da paisagem urbana na qual se inserem: artistas de rua adicionam as suas próprias paletas às paredes de Lisboa, o Village Underground reaproveita e adapta contentores para criar um emaranhado de espaços de co-work criativo. Na Mouraria, um bairro outrora infame, as exposições ao ar livre da fotógrafa Camilla Watson retratam as gentes locais e voltam a colocar a zona no roteiro cultural.

Um sentido comunitário palpável na vida cultural de Lisboa

Village Underground: co-work em contentores

Criativos prontos, metidos nos contentores

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O caminho que se percorre até chegar ao Village Underground (VU) é, per se, uma experiência única. O VU fica dentro do Museu da Carris, um conjunto de armazéns onde dormem os elétricos centenários que passeiam por Lisboa, e basta seguir os trilhos até ao fim para desaguar num amontoado de contentores com dois autocarros vintage suspensos sobre eles. O conceito Village Underground, um espaço de cowork, foi criado por Tom Foxcroft, em Londres, há dez anos, como uma forma de reunir os amigos num só espaço de trabalho e diminuir os encargos com renda e despesas. Foi baseado neste modelo que Mariana Duarte Silva abriu, em Lisboa, em 2014, o VU Lisboa. Mariana, vivaça, criativa e com muita experiência na área de produção de eventos e agenciamento de músicos, ocupava um escritório no VU London a tempo inteiro quando a urgência de reproduzir esta ideia – um local onde artistas, músicos, designers e outras mentes criativas coabitam -, se apoderou dela.

“Lisboan não estava preparada”

Não foi fácil. Começou a preparar tudo em 2009, mas só cinco anos depois o Village Underground Lisboa abriu portas. “Lisboa não estava preparada. Só em 2011, por exemplo é que foi criado um departamento dedicado à inovação e empreendedorismo, na Câmara de Lisboa”. Quando Mariana contactou com a Carris (empresa de transportes públicos de Lisboa) para angariar autocarros antigos para o espaço, percebeu que havia possibilidade de se instalar dentro do Museu. “Hoje em dia, até já há outras empresas fora do Village, mas dentro da estação”.

Atualmente, os 14 contentores são cérebros criativos. Um deles foi alugado por um escritor que acabou por criar um programa de televisão chamado Contentor 13. É vizinho da Buzico, que organiza trimestralmente uma Mostra de Teatro Breve em Contentores, da Ana, engenheira do ambiente preocupada com a sustentabilidade, e da Petra que faz terapias criativas. Mais à frente está o projeto Once in Fado que promove este género musical português no estrangeiro, e a  Good Mood, produtora de festivais conhecida pela organização do Boom.

Mas o Village Underground não é apenas um aglomerado de alugueres. No autocarro verde azeitona suspenso, há uma cafetaria de dois andares onde se serve almoços, brunch e até cinejantares com chefs famosos e clássicos da sétima arte. Todos os meses há programação forte: pode ser o Cargo, uma grande feira ao ar livre com food trucks e pequenas marcas de todo o país; ou festas de arromba com concertos e DJs. Por fim, envolvido numa atmosfera industrial, sob a Ponte 25 de Abril – uma miniatura da Golden Gate – há caveiras, bichos, mãos e raparigas de vestidos às riscas, tudo personagens criadas para o VU por street artists portugueses.

A cozinha comunitária da Adriana Freire

A cozinhar, os vizinhos do bairro ganham novas oportunidades

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Sexta-feira, oito da noite. Aos poucos começam a chegar à Cozinha Popular da Mouraria os convidados de um jantar de aniversário. Os que nunca lá estiveram, perdem-se sempre neste bairro tipicamente lisboeta à procura de um toldo ou de uma placa que lhes assegure que estão no sítio certo. Mas não há nada que assinale a existência desta cozinha comunitária, exceto uma pergunta rápida aos miúdos que jogam à bola pelas redondezas. Passada essa barreira, eis que se entra numa sala com cadeiras e mesas díspares, uma cozinha bem equipada, aberta, onde qualquer um pode entrar para cheirar os tachos e um pátio acolhedor onde sofás de antigos donos povoam o chão de cimento. Em cima da mesa está uma das melhores focaccias de Lisboa – receita cedida por um chef local – húmus bem temperado, paté de fígados de aves e um requeijão decorado com ervas. Quem fez tais iguarias? Pessoas do bairro, com vidas complicadas na algibeira e anos de dificuldades. Francisca, uma amorosa anciã de oitenta anos que vivia solitária numa casa ali perto, é agora a diretora do lava-louça e a mão certeira para fazer o leite-creme da sobremesa. A fritar as pataniscas, um dos pratos principais dessa noite, está João, com 57 anos, que estava desempregado porque o mercado de trabalho não perdoa idades. A dar ajuda no restante menu estão dois ex-presidiários que saíram do tráfico de droga graças a esta cozinha.

“No futuro, quero criar uma aldeia autónoma, sustentável e tecnológica, onde as paredes são hortas e a água da chuva é reutilizada.”

Quem enumera, com orgulho, as pessoas que ajuda com este projeto de inclusão é Adriana Freire: fotógrafa, jornalista, cozinheira e benfeitora. “Enquanto colaborei com várias revistas e jornais, fotografava imensas cozinhas e sempre gostei. Isso e a vontade de fazer parte de uma grande família – que nunca fiz – criou em mim uma necessidade de ajudar através da comida”. Com isso em mente, Adriana candidatou-se a um apoio da Câmara Municipal de Lisboa com o projeto de uma cozinha comunitária na Mouraria. “Estava na altura. Depois ter voltado a morar na Mouraria, percebi que esta zona, em reabilitação, estava finalmente a mudar”. O processo foi turbulento: esteve para perder o subsídio porque não encontrava um local adequado; depois desse obstáculo superado, o dinheiro só chegou meio ano depois e, quando chegou, era obrigatório gastá-lo, na totalidade, em três meses. Finalmente, em dezembro de 2012, a Cozinha Popular da Mouraria arrancou. No início, os workshops serviam para tirar os miúdos da rua e entretê-los. Para isso, apenas receitas simples que lhes agradasse, como as bifanas, resultavam. Neste momento, os workshops para a comunidade profissionalizaram-se e muitos são lecionados por grandes chefs portugueses. Os jantares, formações e eventos pontuais abertos ao público ajudam a pagar as despesas e os ordenados dos colaboradores do bairro. No mesmo largo, do outro lado da rua, Adriana já está a desenvolver a abertura de uma escola de cozinha que forme as pessoas do bairro e as prepare para o mercado de trabalho. “No futuro, quero criar uma aldeia autónoma, sustentável e tecnológica, onde as paredes são hortas e a água da chuva é reutilizada.”

A avó veio trabalhar. E já não quer outra coisa.

Trabalho fora de casa para maiores de 60

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Muita gente poderia achar que design e psicologia têm pouco em comum, mas quando se conhece Susana António e Angelo Campota, essa ideia cai por terra. De profissão, ela é designer gráfica e ele é psicólogo. De coração, ambos são pessoas que acreditam no poder da partilha enquanto forma de inovação social.

Em 2014, uniram esforços para fazer nascer um projeto carinhosamente intitulado “A Avó Veio Trabalhar”: um atelier para pessoas com mais de 60 anos, onde podem voltar a ter um trabalho diário que não só as tira de casa, como também lhes puxa pela criatividade, autonomia e destreza. Guiadas por Angelo e Susana, aprendem e poem em prática artes como costura, crochet, serigrafia e tear, tendo como objetivo a criação de quatro coleções anuais de acessórios de moda e de peças decorativas.

“É importante dignificar o seu trabalho, desafiá-las em vez de as reduzir, dar-lhes autoconfiança”

Almofadas, mantas, carteiras, luvas e demais produtos são produzidos à mão pelas “avós” e vendidos no atelier, que funciona também como loja. Além de elegantes festas de lançamento, o packaging das peças prima pelo design arrojado e faz questão de juntar ao produto uma foto da pessoa que o manufaturou. “É importante dignificar o seu trabalho, desafiá-las em vez de as reduzir, dar-lhes autoconfiança e retirá-las do estado meio adormecido em que muitas vezes estão”, explica a dupla.

Por isso mesmo, o processo é sempre de co-design. As avós são incentivadas a trazer ideias, sugerir novas técnicas, propor tecidos, cores e padrões e são sempre as modelos escolhidas para os catálogos. Além das coleções próprias, recebem também encomendas de empresase fazem workshops de costura, onde as avós são as professoras. Os pequenos lucros servem para manter a porta aberta e proporcionam atividades como visitas de estudo para conhecerem artesões noutras cidades. Para que tudo isto seja possível, Angelo e Susana desdobram-se nos papéis que desempenham na vida destas pessoas. Já são só psicólogo ou designer, são também professores, vendedores, mediadores de conflitos e amigos.

No início eram apenas 12 “avós”, hoje já são mais de 60, incluindo dois homens. A mais nova tem 57 anos, a mais velha 98. No atelier ou em casa, cada uma tem pode escolher onde prefere trabalhar. Mas é no nº 124 da Rua do Poço dos Negros que quase todas se preferem juntar diariamente. É  lá que, à volta de uma enorme mesa de madeira, partilham histórias de vida, saberes, risos e angustias. E que encontram muitas vezes a solução para a solidão vivida em casa.

Fábrica do Braço de Prata: cultura utópica e ilegal

Uma antiga fábrica de armamento transformada num pólo cultural

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Ao contrário do que muitos possam imaginar, a ligação do filósofo Nuno Nabais à Fábrica do Braço de Prata não tem dez anos, tem quase 50. Quando era miúdo roubou, por brincadeira, algumas armas do Museu da Marinha. Armas essas que, ironicamente, tinham sido produzidas na mesma fábrica a que hoje dá vida nova. Na altura, a polícia perdoou o delito da criança. Mas a ilegalidade estava feita, a primeira de muitas na história entre Nuno e a Fábrica do Braço de Prata.

Não é fácil explicar o que é a Fábrica. Antigo posto de produção de armamento, foi deixada ao abandono por dezenas de anos até que Nuno viu nela o cenário ideal para um espaço cultural. Longe do centro da cidade, numa zona industrial menosprezada pelos lisboetas, nascia em 2006 um projeto que englobava uma enorme livraria de filosofia, uma programação mensal de exposições de artes plásticas e espetáculos musicais, workshops e eventos temáticos. Tudo isto numa fábrica com paredes esburacadas e tetos cheios de falhas, parte assumida do carisma que mantém até hoje, inerente à degradação do património da cidade.

“A história da filosofia sempre passou pela desobediência”

Questões burocráticas relacionadas com a construção embargada de um enorme condomínio privado naquele terreno, levou-o a processo de ilegalidade que se tornou imagem de marca da Fábrica. Dez anos depois, e com muitas idas a tribunal pelo meio, além de petições de fãs do espaço, o seu movimento okupa mantém-se. “A história da filosofia sempre passou pela desobediência”, afirma o filósofo. “Aqui demonstramos que a cultura sustentável, sem subsídios, é possível. E que vale a pena acreditar nos cidadãos que acarinham o seu património e o reabilitam com as próprias mãos.”

Atualmente passam pela Fábrica 20 espetáculos musicais por semana e seis exposições de artes plásticas por mês. As tardes são dedicadas às crianças, com ateliês de teatro, música cozinha e, claro, filosofia. À noite abrem-se as várias salas degradadas do edifício, onde ao mesmo tempo tanto se ouvir tanto flamenco, como bossa nova ou uma jam session.

Nuno olha para tudo isto com o seu ar idealista e desafiante, caraterísticas da sua essência. E não é portanto de estranhar que se tenha apaixonado por Sílvia Rebelo, a mulher que se transformou no seu braço direito na Fábrica e na vida. Sensata, organizada, dinâmica e com os pés bem assentes da terra, é ela o verdadeiro motor de arranque entre a teoria e a prática, desde 2009. Juntos dão alma e corpo à Fábrica, um espaço que é hoje também um monumento ao seu amor. O amor que sentem um pelo outro, mas pela cultura também.

Camilla Watson: a fotógrafa do bairro

Mouraria: um diamante em bruto para esta fotógrafa

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Foi amor à primeira vista. A fotógrafa Camilla Watson estava em trânsito, a caminho de uma ação de voluntariado em São Tomé e Príncipe, quando pisou pela primeira vez Lisboa. No voo de regresso já não voltou a Inglaterra, o seu país de origem. Decidiu ficar a viver na capital portuguesa.

Nove anos depois já se sente mais lisboeta do que inglesa. Escolheu viver no bairro da Mouraria, uma zona que tanto tem de tradicional quanto de conturbada. Temida por muitos por causa do historial de pobreza, emigração ilegal e tráfico de droga, era em 2007 uma zona esquecida pela maioria dos habitantes de Lisboa. Mas Camilla viu nele um diamante em bruto. “Era um bairro muito central, cheio de vida real e com um grande sentido de comunidade. Mas ao mesmo tempo muito degrado e esquecido, tal como as pessoas que sempre ali viveram.”

Mais de vinte anos de carreira em fotografia, parte dela ligada a causas humanitárias, levaram-na a perceber que o poder da imagem podia ser crucial para desfazer mitos sobre aquela comunidade. Começou então a fotografar os idosos do Beco da Farinhas, junto ao largo onde hoje tem um ateliê/estúdio aberto ao público. O conjunto de 30 retratos foi depois impresso em placas de madeiras, através de um complexo processo de emulsão líquida de prata que Camilla desenvolveu na sua própria câmara escura, a pensar em materiais pouco comuns. E em 2009 transformou-o numa exposição ao ar livre, inaugurada sob o título “Um Tributo”.

“Era um bairro muito central, cheio de vida real e com um grande sentido de comunidade”

Esta primeira exposição trouxe muitos curiosos à Mouraria, mesmo aqueles que tinham medo de lá entrar. Mas foi o seu segundo projeto, “Retratos do Fado – Tributo à Mouraria”, que definitivamente ajudou a pôr o bairro no roteiro dos locais a conhecer na cidade. Ao todo, 26 retratos de artistas ligados à história da canção típica de Lisboa, encontram-se hoje espalhados pela Mouraria, o bairro que é considerado o berço do fado. Todos impressos diretamente nas paredes, durante a noite, com recurso a uma câmara escura móvel construída por Camilla. Quem os quiser ver basta aventurar-se pelas ruelas labirínticas do bairro, acabando, invariavelmente, por se encantar por ele.

Na companhia do seu fiel amigo D. Quixote, um simpático cão de água português, Camilla passa boa parte do dia no seu ateliê, onde vende pequenas reproduções destas imagens, impressas em papel, madeira ou mosaico. Sempre com um sorriso afável, responde à dúvida que quase toda a gente tem: A Mouraria é perigosa? “O medo está muito na cabeça das pessoas. Há muita gente boa aqui para se conhecer”. E os retratos tirados por Camilla Watson são um ponto de partida.

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Texto: Inês Matos Andrade & Paula Cosme Pinto
Fotografia: Nuno Fox