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Marco Balesteros
Graphic Designer, Apartment, Baixa, Lisbon
interviews > Marco Balesteros

Marco Balesteros é considerado um dos designers portugueses mais originais e talentosos da sua geração. Visitamos o criativo no seu apartamento que é também o seu local de trabalho em pleno centro histórico de Lisboa, a Baixa.

É neste bairro, onde se ouvem o badalo dos sinos das igrejas velhas e o calcorrear dos turistas que por aqui passam, que Balesteros tem a sua base criativa. Daqui, e por aqui, cria e mantém a sua rede de contactos com o resto da Europa, especialmente com Frankfurt, através do projeto Random Press.

A meio da conversa, mudámos de local e fomos para um dos seus locais preferidos da cidade, o café Martinho da Arcada. Poiso secular de intelectuais da cidade, frequentado por Fernando Pessoa no início do século passado. Lá falou-se do presente do design feito em Portugal e como a crise económica está a mudar mentalidades, para o bem e para o mal.

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És natural de Lisboa?

Não, sou natural da cidade de Évora, vim para Lisboa para estudar na Faculdade de Belas Artes.

E como foi a adaptação a uma cidade maior?

Foi normal, aliás a distância entre Lisboa e Évora não é muito grande (cerca de 130 quilómetros).  Claro que há sempre a adaptação a uma cidade maior, mas Lisboa tem algo de cidade pequena…por isso não foi chocante.

E viveste sempre no centro de Lisboa?

Sim, em Lisboa sempre me interessou o centro e o circuito que se faz entre as zonas do Chiado e da Baixa.  Estes são os locais que frequento. 

Antes de vires para esta casa viveste dois anos na Holanda, em Arnhem,  quando frequentaste o curso na Werkplaats Typografie, porque decidiste regressar a Lisboa?

Há sempre o apelo da terra. Há muita coisa para fazer em Lisboa, enquanto que na Holanda, apesar do contexto ser mais favorável, há muito coisa feita. Também porque acho muito importante que, enquanto designers, o nosso trabalho tenha uma identidade própria devido a um contexto específico, como um local ou uma cidade. Foi por isso tudo e porque, por enquanto, quero estar em Lisboa.

Para além da Holanda também tens ligações a projetos na Alemanha, nomeadamente através do projeto “Random Press”?
Sim, especialmente com Frankfurt, através da Random Press em colaboração com o Michael Satter e a Sandra Doeller. A Random Press é uma editora independente. Existe entre Lisboa e Frankfurt e surgiu de uma afinidade comum por publicar. Todos temos interesses e abordagens muito distintas porém o diálogo é muito fácil e natural apesar da distância. A Random Press ainda é um projeto recente e procura ainda uma direção própria. Pretendemos que esta seja apontada pelas publicações que realizamos e pelos diálogos que mantemos com potenciais interessados e leitores. 

Habitas nesta casa, em plena Baixa Pombalina, que funciona também como o teu estúdio, é uma relação pacífica o facto de viveres e trabalhares no mesmo espaço?

Sim, até agora tem sido. A maior parte dos meus trabalhos são processos mentais. São uma construção que faz parte de um processo, processo esse que pode passar por ler, andar pela cidade, falar com pessoas, jantar fora, ver filmes, ouvir música ou uma palestra, etc etc…Depois a parte de execução é relativamente rápida.

Vives num bairro muito característico de Lisboa que, contudo,  e ao contrário de outros centros de outras cidades europeias, é um bairro muito pouco habitado, quase deserto. Como é viver aqui?

Sim, aqui não há propriamente um sentimento e vivência de bairro porque é uma zona desabitada, apesar de ser no centro da cidade. Mas, por um lado, agrada-me o facto de à noite existir uma paz muito especial nesta zona.

E de que forma é que a vivência neste local influência o teu trabalho?

Estou sempre atento a pequenos pormenores de coisas que vejo na rua, e que de algum modo influenciam o meu trabalho. O meu trabalho é um pouco cru e arcaico e isso tem um paralelismo com a zona onde vivo, com as montras das lojas ou com o menus dos restaurantes. É tudo muito cru, genuíno, autêntico.

E este bairro é tipicamente lisboeta ou existe um mix de culturas?

Lisboa não é assim tão cosmopolita. Não se vêm muitas comunidades separadas como noutras cidades da Europa, aqui ainda se sente a alma portuguesa. Nesta zona passa muita gente e há muitos turistas mas não existem assim tantos estrangeiros que formem comunidades específicas. Basicamente os estrangeiros que cá vivem misturam-se com os locais.

Em termos de metodologia de trabalho, a tua experiência internacional no norte da Europa mudou alguma coisa, tornaste-te mais metódico e organizado, ou não?

Os dois anos na Holanda foram um ponto de viragem no meu percurso profissional. Comecei a perceber mais facilmente o que quero e hoje consigo ser mais objetivo com o meu trabalho. Mas a gestão do meu tempo é por vezes disfuncional.   

Quando é que percebeste que querias seguir a área do design gráfico?

No início da minha formação, em Évora, estive mais ligado às artes plásticas. Fui fazer Escultura na Faculdade de Belas Artes em Lisboa, mas depois percebi que não
era bem o que me interessava. Acabei por perceber que tinha mais afinidade com as Artes Aplicadas, em que é necessário trabalhar com alguns constrangimentos à partida. O que é curioso é que ultimamente tenho apostado em projetos auto iniciados e não comissionados e sou eu que determino as balizas. Ou seja, ultimamente distanciei-me do design como um serviço. Porém acredito que até numa relação designer /cliente esta posição ainda é válida. O caráter autoral pode também ser entendido como um posicionamento forte, ou uma política e metodologia de trabalho próprias.

Acreditas então que o design pode ser autoral? 
O design contemporâneo está a encontrar novas direções. Uma delas poderá ser o surgimento de designers com um posicionamento mais vincado, que não resumem a sua prática a trabalho comissionado e que a a alimentam por outras vias, que não passam apenas pelo design. 

Que projetos estás atualmente a desenvolver?

Estou a fazer um vídeo para as “Small Talks” da AIGA de Chicago. Foi pedido a um painel de vários designers de várias partes do mundo que realizassem pequenos vídeos que retratassem a sua prática e o contexto em que trabalham. A ideia será fomentar um diálogo internacional na prática do design. O meu vídeo encontra-se em processo de construção. Quero evitar a ideia comum de mostrar o atelier e os projetos. Não quer dizer que não o faça, estou no entanto a tentar encontrar outras soluções.

Consegues avaliar o que se passa com a nova geração de designers em Portugal?

Sente-se, de há um ano a esta parte, que há qualquer coisa a florescer. A facilidade que existe em comunicar e estabelecer contactos através da Internet, das Redes
Sociais, está a dar bons frutos e a resultar em alguns projetos muito interessantes. Parece-me que está a surgir uma comunidade em Lisboa e no Porto. A ideia de construção de uma comunidade é, a meu ver, muito importante e de certo modo urgente, se queremos ver a profissão crescer e se nos queremos afirmar no cenário internacional.

O que achas de positivo e negativo em relação ao design e à produção cultural na posição periférica de Lisboa em relação a outras cidades europeias? 

O positivo é que os povos mais isolados criaram sempre coisas muito próprias e genuínas. Mas hoje em dia com a internet não estamos tão isolados como isso, talvez estejamos mais isolados de acontecimentos culturais e obviamente dos grandes fluxos financeiros. Pessoalmente ainda continuo a tentar definir de que forma Lisboa pode alimentar a minha prática. A relação nem sempre é pacífica mas consigo dizer que foi aqui que, depois de regressar da Holanda, consegui consolidar o meu trabalho.

Mas, em termos de design, existe algo próprio português? Uma “cena” nacional?

Não consigo identificar um lado genuinamente português porque não há uma comunidade propriamente dita, nem um grupo ou uma escola com uma determinada linguagem e política de trabalho. O português bebe de muitos sítios. Talvez parte da identidade portuguesa seja a miscelânea que daí resulta. Para mim as influências surgem muito do norte da Europa, porque me identifico na forma de trabalhar, mas culturalmente não tenho o comportamento de um europeu do norte porque sou muito mais disfuncional, temperamental e sem dúvida menos sistemático.

O design gráfico é ainda visto como o parente pobre das artes?

Sim, ainda é visto como algo acessório. Ainda não é reconhecido aquilo que um designer pode trazer para um determinado projeto. O designer não é confrontado com os projetos desde a raiz. Na elaboração de um livro por exemplo, o designer é chamado apenas no final para compor. Ainda não é comum a ideia de que a construção de um objeto editorial pode resultar de um diálogo contínuo entre as partes. É no entanto animador ver alguns casos pontuais onde isso já acontece.

Neste crise económica, é inevitável não falar dela, os olhos da Europa estão postos em Portugal. Notas alguma diferença naquilo que está a acontecer na comunidade criativa de Lisboa e na forma de entenderes a cidade?

Sinceramente não notei assim tanto, têm sim surgido coisas onde as pessoas, pela falta de dinheiro, se centram nas ideias. E começa-se a perceber que se pode fazer
mais com menos dinheiro. Nesse aspeto as crises são sempre importantes, porque a falta de dinheiro vai “obrigar-nos” a pensar menos nele e a focar-nos no que realmente interessa.

Mas não poderá existir uma debandada dos criativos nacionais não pode ser perigoso para o desenvolvimento criativo da cidade?

Sim, sem dúvida, eu próprio já pensei em sair novamente, mas acho que o português acaba sempre por voltar, por causa da luz que a cidade tem, pelo estilo de vida, pelas afinidades muito próprias que o país provoca. Mas há também um processo todo que se acaba por se perder. As redes de trabalho, de ideias, de contactos. Existe um maior risco de dispersão. Ou não. Só daqui a uns anos é que vamos perceber o que esta época de crise fez à história do país.

Entrevista: Filipe Gil
Fotos: Isa Silva