Freunde von Freunden

(EN) Ramon Martins
Artist, Studio, Glicério, São Paulo
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A porta do ateliê faz divisa com a rua. Quando está entreaberta, é uma verdadeira vitrine da diversidade que caracteriza a capital paulista, com suas cores, sons e formas. Ramon Martins, um artista plástico que gosta de trabalhar com tinta, argila, madeira, foto e vídeo, observa tudo de perto. Entre uma pincelada e outra, vê japoneses andando contidos, ao mesmo tempo em que bolivianos passam apressados carregando suas peças de artesanato para vender nas ruas do centro. Um minuto a mais e o artista se depara com haitianos, coreanos, italianos e muitas outras etnias – um encontro de raças, povos e culturas. São Paulo é assim: “Cruel e verdadeira, bela como é”, como ele mesmo define.

Ramon se declara apaixonado pelo bairro que escolheu para viver, o Glicério, na região central, logo que chegou à metrópole. “Acredito que os diretores Pedro Almodóvar e Quentin Tarantino adorariam morar aqui. Renderiam diversas histórias”, brinca o artista, atualmente representado pela Galeria Oscar Cruz, de SP.
Seu espaço de criação é amplo e está em constante transformação – há diversas intervenções artísticas pelo local. Segundo ele, cada metro quadrado do galpão representa a liberdade de criar e assim transpor um universo particular, que não pode ser visto ou tocado, para um espaço físico. “O ateliê é a continuação do meu eu. O meu interior se reflete nos locais que ocupo”, comenta Ramon. Se fosse um arqueólogo, ele diz que exploraria ainda mais o lugar, pois algo novo sempre pode surgir. Que tal começar agora?

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Você mora e trabalha no mesmo espaço?
Eu vivo no mesmo prédio em que trabalho. Na verdade, divido um apartamento há três anos com alguns amigos no segundo andar do edifício. O ateliê fica na loja térrea e tem cerca de 280 metros quadrados, o que é muito cômodo para mim. Não preciso enfrentar o terrível trânsito de São Paulo, basta descer as escadas e encontrar uma porta que me permite o acesso direto ao ateliê sem precisar sair na rua. Dessa maneira, o apartamento e o estúdio acabam se fundindo no mesmo território.  Não há lugar melhor para pensar e criar quando estou na cidade. Minha personalidade, anseios e fases de criação podem ser identificados no local, basta prestar atenção ao entorno.

Qual é a importância da casa no processo de criação de um artista plástico?

No meu processo criativo a casa tem suma importância, principalmente por eu ser uma pessoa muito caseira. Fico à vontade aqui, gosto de ficar em silêncio, aproveitar minhas horas de descanso, refletir, viajar sem sair do lugar. Minha casa é onde me sinto seguro de ser, minha cabeça, meu intimismo. Preciso ter um lugar assim para criar, pensar em minhas obras, rever minhas influências.

Como você encontrou o imóvel e o que mais gosta no local?

Encontrei o ateliê há quatro anos pela internet. Tinha acabado de chegar da Europa para fazer uma exposição no Museu de Arte de São Paulo (Masp). Resolvi morar na cidade por que sentia a necessidade de me fixar nela devido ao meu trabalho – São Paulo é uma grande potência quando se trata de arte.
Aos poucos, fui deixando o local do meu jeito, com objetos e lembranças que me remetem a situações e amigos. Gosto de tudo por aqui, mas me identifico muito com as luzes de natal que atravessam o ateliê de ponta a ponta. Elas foram presentes de um amigo próximo. Pode ate parecer brega, mas acho que esses detalhes dão um clima especial ao espaço. Outra característica de que gosto bastante é o carrinho de supermercado, que tem várias funções, assim como o carrinho de mão e o de feira, todos adquiridos no próprio bairro. Os móveis fortes e de rodinhas me encantam também, pois podem mudar de local quando preciso, são funcionais. Não há um motivo muito despecial, mas gosto muito também da minha serra circular.

O imóvel parece um galpão. Você sabe o que funcionava antes no local antes do seu ateliê?

É um galpão com mezanino, uma cozinha, um quarto e dois banheiros. Antigamente era uma alfaiataria, coisa dos anos 1940. No início dos anos 2000, o local foi transformado em um depósito de bebidas tosco e sem graça. Quando assinei o contrato de locação e peguei as chaves, encontrei o imóvel em um estado complicado, com ratos e baratas (risos) e muito sujo. Nem mesmo o banheiro funcionava direito. Aos poucos, consegui transformá-lo, colocar todos os itens que precisava e imprimir um pouco da minha personalidade em todos os ambientes.

 O que o seu ateliê representa para você?

A continuação do meu eu,  minha pele como diria o artista austríaco Friedensreich Hundertwasser. O meu interior reflete nos locais que ocupo, os ambientes são orgânicos e estão em  constantemente transformação. O ateliê representa o espaço onde a palavra liberdade existe. Sempre que há contato com ela é possível transpor um universo particular e imaterial para o mundo físico. Se eu fosse um arqueólogo, meu ateliê seria como  estar sempre  a explorar  algo novo, a buscar novas formas que irão surgir. Gosto bastante disso e não abro mão dessa gostosa sensação.

Você gosta de viver em São Paulo?

Não sei se quero dizer que gosto. Se gostasse não pensaria em morar em outro lugar. Estou com planos de ir viver em breve no campo, em um sítio a 300 quilômetros da capital paulista. Minha ideia é fazer uma imersão no processo criativo e desenvolver projetos tridimensionais durante três anos.
Essa mudança está relacionada a um desejo que tenho há muito tempo, que é estar em contato constante com a natureza e nela produzir peças de arte. Isso não quer dizer que eu esteja me desligando de São Paulo completamente. Pelo contrário. O ateliê permanece ativo e o apartamento será uma base importante para quando estiver na cidade. Digamos que estou ampliando os lugares onde vou passar mais tempo de minha vida.

Então São Paulo não te inspira?

Claro que inspira, e muito! São Paulo é frenética, não dorme, uma grande reunião de culturas. Gosto e me identifico com sua velocidade e acessibilidade, isso em comparação com outras cidades em que vivi e com minha própria inquietação. Não há como negar que a metrópole é avançada em relação às demais aqui do país. 
Mas também existe muita dor por aqui e sinto isso na pele. Não me identifico com muita coisa e talvez por isso eu esteja fazendo arte por aqui, para amenizar e colorir esses problemas.

Se você fosse pintar a cidade com suas tintas e pincéis quais cores São Paulo teria?

Com minhas tintas e pincéis mágicos eu passaria tinta verde em prédios e avenidas, para levar a cor da natureza às cenas tão cinzentas que compõem a metrópole. Todas as fachadas seriam diferentes e coloridas, bem como somos por natureza.

Seria uma interessante maneira de manifestar a arte urbana. O que você acha desse movimento na capital paulista? 

A arte urbana de São Paulo faz parte de um movimento artístico atual e sinto que faço parte dele. Não consigo ou quero definir o que faço, mas simpatizo com a palavra “multi” e pelo conceito de “antropofagia imaginária”. É uma pratica que considero difícil,  tenho de me expor ao extremo e ser responsável pelos meus atos, o que me atrai e me excita, ao mesmo tempo em que me faz refletir bastante sobre como agir.
Produzir uma obra na rua e estar em contato direto com a  resposta sincera do público, que vivência a obra de verdade, mas é uma ótima experiência – o colecionador direto que é o povo. O desafio é diferente, cada obra tem um lugar e um efeito único na cidade. É como uma tatuagem no corpo da metrópole, que pode desaparecer para dentro da pele com o passar do tempo, porém sua memória fica.

Quando você decidiu seguir o rumo das artes plásticas? 
É difícil definir, mas acredito que foi logo depois da faculdade. Neste momento eu pedi demissão do meu então trabalho como professor de arte e foquei toda a minha energia em produzir obras e mandar para a galeria para a qual trabalhava na época. 
Essa transição foi muito espontânea – desenho desde que me conheço por gente e o contato com as artes só ampliou desde então. O caminho da minha vida se tornou um funil para as artes.

Quais são suas influências?

Cultura asiática, africana e etnia de um modo geral. As ruas, a natureza, o universo imaterial e alguns movimentos artísticos, além de escritores variados, estimulam minha vontade de criar.

Com quais materiais mais gosta de trabalhar?

Tinta, argila, madeira, soundscape, foto e vídeo. Vou desde materiais mais simples e antigos, como a tinta, a vídeos e fotos digitais. Gosto disso. Essa lista extensa de possibilidades me encanta e me convida a conhecer diferentes mundos, culturas, tempos e períodos.

Você considera seu trabalho mutante?

Sim e não. Algumas coisas mudam e outras se transformam. As mudanças são constantes, mas a transformação artística é diferente. Me incomoda quando percebo que estou sendo repetitivo e, depois dessa percepção, rapidamente a mudança acontece. Quando estou pintando, por exemplo, é muito comum as pinturas terem muitas camadas antes que eu consiga parar de pintar.
Já ouvi dizer que colecionadores sentem-se inseguros com artistas que têm esse perfil, mas não sinto preocupação em relação a isso. Sempre estarei  transformando. 

Como está o seu trabalho no exterior? Tem feito muitas exposições e pensa em expandir ainda mais seus trabalhos?

Sempre que tenho convites eu viajo ou envio meus trabalhos para exposições e eventos fora do Brasil. Eu sou a minha  representação direta fora do país e estou estudando novos movimentos pela Europa e América em 2014.

Você já morou em Belo Horizonte e em Brasília. O que essas cidades representam para você, em relação à sua carreira e à sua linha de trabalho?

Belo Horizonte e Brasília representam o momento em que minha arte estava ganhando asas. Quando fui morar em Belo Horizonte, tinha acabado de sair da faculdade de artes e estava trabalhando com uma galeria de arte contemporânea. Dois anos depois fui morar em Brasília, mas neste momento eu estava produzindo e vendendo meus trabalhos para os Países Bascos (alguns trabalhos dessa época ficaram no Brasil).

Se pudesse escolher um local para morar atualmente qual seria?

Na Chapada dos Veadeiros, Goiás. Paraíso quente e natural, longe de tudo e no meio do Brasil. A natureza me atrai e o Brasil tem inúmeros lugares repletos de muito verde.

Fotografia: Gui Morelli
Entrevista: Juliana Duarte
Produção: Camila Soares – Mila Productions

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